O clima crescente de insatisfação começa a
tomar conta do canteiro de obras do Complexo Petroquímico do Rio de Janeiro
(Comperj) e a preocupar autoridades. Localizado a menos de uma hora do Centro
do Rio, o empreendimento tem sido alvo de denúncias normalmente só vistas nas
regiões mais remotas do país: falta de alojamentos adequados, alimentação ruim,
descumprimento de "baixas de campo" (folga a trabalhadores de outros
estados), salários desiguais para mesmas funções e agenciamento pelos chamados
"gatos", comuns nos flagrantes de trabalho escravo na zona rural. Na
última semana, 15 mil trabalhadores cruzaram os braços por um aumento de 12% no
piso salarial de R$ 860 e de 42% no vale alimentação, atualmente em R$ 210.
O clima ficou mais tenso na última quarta-feira,
quando carros de funcionários da Petrobras foram atacados, sem feridos, num
piquete de cinco mil grevistas na Rodovia Tanguá (RJ-116), uma das vias de
acesso às obras do complexo.
Segundo especialistas, a onda de greves
que se espalhou em grandes canteiros país afora nas últimas semanas - como
canteiros de estádios da Copa na Bahia e no Ceará, além da Usina Hidrelétrica
de Belo Monte, no Pará - mostra as dificuldades das empresas em administrar
grandes obras e dar condições necessárias para atender às migrações de mão de
obra que elas provocam.
Agenciadores
prometem "mundos e fundos"
João Benigno, natural de Pinheiro, no
Maranhão, foi chamado por uma agência de emprego em sua cidade natal para
trabalhar de pedreiro numa das empreiteiras que atuam no Comperj, com salário
de R$ 1.302 e alojamento no Rio. O salário está sendo pago. O alojamento, não.
Segundo Benigno, a empresa informou que houve um equívoco da agência que o
sondou. Ele gasta agora R$ 400 de aluguel para morar em Itaboraí, na região metropolitana
do Rio, próximo do canteiro.
Vim porque o salário é maior do que em
Pinheiro, de R$ 700. Tenho mãe, pai e irmã no Maranhão. Vou esperar o fim da
greve. Dependendo de como terminar, vou decidir se fico ou volto - conta ele.
Já o goiano Glenio das Dores Ferreira, que
trabalha na área de montagem, queixa-se que não recebeu reembolso prometido das
passagens para vir ao Rio trabalhar nas obras:
Quando chamam a gente para trabalhar aqui,
prometem muita coisa. Quando a gente chega, tudo muda.
Segundo Luiz Augusto Rodrigues,
secretário-geral do Sindicato dos Trabalhadores da Construção, Montagem,
Manutenção e Mobiliário de São Gonçalo, Itaboraí e Região (Sinticom), os
funcionários chamados por "gatos" - como são chamados os agenciados
de mão de obra - são maioria nas obras do Comperj.
As empreiteiras preferem gente treinada,
acostumada com trabalho pesado, e trouxeram muita gente de fora para a obra.
Essas pessoas estão tendo uma série de direitos desrespeitados, o que gera
insatisfação e tensão - diz Rodrigues.
Sem alojamento adequado oferecido pelas
empresas, os trabalhadores do Comperj se instalaram por conta própria em
Itaboraí e outros municípios da região, como Cachoeiras de Macacu, Magé e São
Gonçalo. Moradores construíram "puxadinhos" no terreno de suas casas
e passaram a alugá-los. No bairro de Vila Rica, em Itaboraí, há quase um ano,
nove conterrâneos de Tabuleiro do Norte, município no Ceará, dividem uma casa
de dois cômodos e um banheiro. Dois dormem em redes, na varanda. E como há
muita gente na casa, às vezes, são obrigados a usar um bueiro como banheiro. Há
um fogão e uma geladeira antigos, com a porta fechada por uma amarração de
fios. Eles pagam R$ 580 de aluguel do próprio bolso.
O trabalho não é bom de boca (o salário
não é suficiente para se manter e mandar dinheiro para família) e a gente não
consegue juntar dinheiro. Deixei mulher e filho no Ceará. Tem que sobrar para
mandar para eles. Mas não penso em voltar agora. Estamos acostumados a viver no
mundo - diz o cearense Sandro Maia, que trabalha na carpintaria do Comperj.
Para Atnágoras Lopes, coordenador da
Central Sindical Popular Conlutas, a desilusão dos trabalhadores do Comperj é
também sentida em obras como da usina hidrelétrica de Belo Monte, no Pará.
Embora não haja o mesmo grau de isolamento do trabalhador, ele explica que
existem semelhanças com o trabalho degradante.
Em obras urbanas, como o Comperj, essa
condição não é vista geralmente no canteiro ou nos alojamentos próprios das
empresas, mas de forma indireta, nos operários que precisam se virar por conta
própria - explica Lopes, que acompanhou os conflitos de Belo Monte e passou a
semana no Rio, na greve no Comperj. - Os empregadores precisam rever as
relações de trabalho nos canteiros.
Para empresas, não existem irregularidades
o cearense David Alves, de 36 anos, veio para o Rio há cerca de um ano
trabalhar como armador nas obras do complexo da Petrobras. Ele afirma que,
deste então, não recebeu "baixa de campo" e a passagem aérea, um
direito de trabalhadores de outros estados. Para piorar, o contracheque de
março veio com descontos de 30% por causa das greve no complexo em fevereiro,
que foi considerada abusiva pelo Tribunal Regional do Trabalho (TRT):
Já trabalhei em obras em Alagoas, Rio
Grande do Norte, Goiás. Tem obras boas. Em Goiás, voltei com R$ 10 mil no bolso
.
Em nota, o Sindemon e o Sinicon, que
representam as empreiteiras, dizem desconhecer "qualquer queixa de
empregados e de sindicalistas relacionada a irregularidades nos reembolsos de
passagens, alojamentos e uso de agenciadores em outros estados". Sobre
alimentação, informam que "em hipótese alguma seriam servidas refeições de
má qualidade, pois além de haver cláusula contratual exigindo qualidade, a
saúde do trabalhador é primordial".
Segundo o delegado da 71ª DP (Itaboraí),
Wellington Vieira, a criminalidade está aumentando em Itaboraí. E explica que a
Polícia Militar não tem efetivo suficiente na região:
A região está virando um barril de
pólvora.
Fonte: Bruno Villas Bôas / Agência O Globo

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